MINHA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: O ÔNIBUS
O Ônibus
Victor de Lima
Rodrigues
De (a)manhã(ecer).
Com sono do dia anterior
a cidade amanhece e quase sempre sem nem parecer que dormiu... Ele também. Com
a lembrança da noite e com os olhos no dia ele levantava. Com o alarme, banho,
perfume e farda de ontem, com o ombro pesado da bolsa que, por entre almoço,
roupas, livros, canetas, cadernos, pulsam nas costas no correr da subida da rua,
chegava no ponto; queria ir sentado. Pesava levar, ainda mais de pé dentro do ônibus então... Se apressa, tanto que as vezes não dá tempo despedir-se dos
pais, as vezes eles ainda dormem, as vezes sai sem comer: “Dormir mais é melhor
que comer” respondia-se quando despertava mais cedo que o alarme. O tempo
parece correr rápido ao passo da casa para ponto. E por mais que a muito já
estivesse com os olhos abertos e se aprontado para o instante, é a chegada do
número no alto do Ônibus dobrando uma curva longe, no som do motor, na fumaça que
sai do cano que dança no ar; era nisso que ele acordava. E todos no ponto
acordavam. "Mas se eu não for?" Pensava, mas já subia o Ônibus, já
avistava onde sentar e passava por entre bancos de pessoas no corredor que
acordaram antes... Mas não sentou. Em coletivos as regras ficam evidentes, é
mais do que chegar primeiro; é estratégico. É preciso conhecer bem a fila da
porta do ônibus, ter conhecimentos matemáticos para calcular as cadeiras vazias
com os passageiros que ainda vão entrar, saber bem o percurso e os obstáculos
até a cadeira. O prêmio, é claro, ir sentado... Justiça. A lei do mérito, em
coletivos, funciona bem.
Pelo menos não perdi,
pensou. Recordou do olhar do chefe ao atraso de dias atras, do sussurro
distante que parecia falar dele... Aliviou-se. Tanto que com uma das mãos (a
outra segurava o Ônibus) tentou buscar na bolsa uma folha. “Leiam. Amanhã
continuamos” palavras da professora no dia anterior sobre o trecho do livro
impresso na folha que ele buscava. Tentar fazer tais movimentos na dança do Ônibus que no desvio de buracos, nas curvas e altos, nos sinais e freios,
atrapalham os passageiros até de respirarem. Tentou, mesmo esbarrando nos
outros tentou, mas não conseguiu. “Na ida para aula eu leio” pensou.
Se esforçava para
desprender-se do automático, mas por vezes é inevitável; desligar do instante e
ter o descontrole do tempo é viciante. Pensava na folga... Se prendia em
fantasias... E num instante real lembrava que estava longe, longe da folga,
longe do fim do dia, longe de casa... Da janela olhava o reflexo do sol, esse
que não estava longe, mas coberto por prédios... É perigoso; a fantasia se
remedia do cômodo e cresce distante da imaginação, dos sonhos. “Será se vai
chover mais tarde?” se perguntava.
De (en)tarde(cer).
Com o sol que desce
rápido pelo asfalto, eles corriam contra o tempo. Quase sempre era tarde.
“Ainda bem que posso trocar de roupa na casa dela” pensava no caminho do
trabalho para a casa da amiga. “Vamos, vamos! Hoje estamos atrasados!” ele
escutava de fundo a amiga dizer com os passos rápidos e coração acelerado. O
que mais preocupava era perder o primeiro ônibus, porque isso significaria
perder a primeira aula. Seria mais rápido trocar de roupa no trabalho, na copa
tem até um chuveiro para os donos... Se já me olham com olhos tão pesados por
chegar minutos atrasado de manhã, imagina ficar devendo favores para aqueles
olhos? Pensou depois de surgir a ideia. Dona Ana, a amiga, com o maior sorriso
do mundo lhe ofereceu a casa: “Trabalhamos no mesmo lugar, vamos para a mesma
faculdade e pegamos o mesmo ônibus! Deixe de coisa, já havia te falado que é
para você ir comigo. Tem espaço!” e continuava... “Você é muito besta se vai
achar que vou aceitar algum dinheiro, seja pra água ou outra coisa... Não é um
favor! Nessas correrias, sozinhos, não chegamos em nenhum lugar não! E olhe que
passando esse fim de semana já começa as aulas.” e riu depois.
Dona Ana entrou primeiro
que ele no trabalho, na faculdade também. Eles se tornaram amigos já de início,
com o tempo se confirmou, como boa amizade que se tem sem saber como começou.
Era mãe de uma moça com mais ou menos a idade dele e que estudava em outra
faculdade. Talvez o olhasse como filho também... Dona Ana nasceu em uma cidade
pequena, muito longe dali. “Educação, estudo... É tudo que a gente pode ter,
que a gente pode conquistar. É sonho grande! Esse negócio de ‘preparatório para
o mercado de trabalho’ é pra enricar gente rica! Eu sei que você não é besta,
você quer ficar aqui para sempre? (ela apontava com os olhos para o depósito)
Nem eu! Não é que não mereçam, mas tem muito chefe (e falava baixo) que não faz
nada pelos funcionários... Eu demorei muito (e prendeu um pouco os lábios)...
Demorei para ver isso (e os olhos brilharam um pouco)... Mas ainda tem tempo!
Imagina... Eu dizendo para você tão jovem, para minha filha! (sorriu)” e
continuava: “A verdade é que pra gente que não tem sobrenome sem inteligência
não chega em lugar nenhum... Sem estudo, sem educação e vontade não vamos muito
longe, porque não basta querer... Meu Deus... Quem dera! (e sorria com um riso
de dentro) As vezes não basta nem merecer.” Falava Dona Ana para ele em
conversas no depósito.
Agora, ele já no segundo
semestre da faculdade e ela no quinto, na ida para casa dela, recordaram de
como Dona Ana deu a ideia da sua casa: “Se soubesse que você andava tão devagar
não teria insistido tanto na época. Vamos, vamos! Rápido!” E riram, e
respiraram fundo, e pisaram forte no chão com o tênis apertado, com o suor do
dia trabalhado, com o vento frio que batia na cara e quase que dizia que não
chegariam... Mas chegaram. Em movimentos quase ensaiados (de tantas vezes
repetidos), subiram as escadas; enquanto um sai do banho o outro se arruma,
troca a calça, meia, sapato, camisa, perfume, cabelo e porta trancada. Chegavam
no ponto. “Ufa, deu tempo! Agora espero que não chova na aula... Aquela
passagem da avenida está tão ruim...” não choveu naquele dia, talvez fosse um
prêmio pela correria... Coisa quase inacreditável porque era época de chuva, de
poça d’água no caminho, de pouco prêmio... No ponto, como a luz do poste ao
lado que atrai os insetos, eles miravam a pista, e quase que os insetos
trocaram de luz ao avistarem os olhos deles... Estavam ansiosos para a chegada
do Ônibus, não por medo da chuva, não para voltarem logo para casa (porque
poderiam voltar e irem para casa dali mesmo), não pela folga ou simplesmente
“acabar logo com essa parte do dia”... Estavam ansiosos para a aula, para o
futuro.
Com alívio ele puxou o ar
fundo e jogou para fora... Pegou, com a maior liberdade do mundo (o ônibus não
estava tão cheio na ida) a folha da bolsa e ia lendo o trecho do livro... “Quem
tem um amigo tem quase tudo!” Ele pensava já sentado.
De (a)noite(cer)
Sob a passarela ele subia
o alto para o ponto. Dona Ana já havia pegado o seu ônibus. Ao lado dele
estavam quase todos da faculdade esperando; colegas da mesma sala, pessoas de
vista da hora do intervalo... Era tarde e conversavam sobre o dia, sobre a
aula, sobre o amanhã. Brilhavam de cansaço, força, vontade e inspiração... Em
contraste com o dia, mesmo cansado, mesmo sendo os últimos passos do dia,
aquele momento, após a aula, era o ponto máximo do seu dia... E ele estava no
alto... Não esperava mais o Ônibus, pois do alto que subia do fim da avenida o ônibus parecia descer de novo na pista, parecia não mais cumprir horário em pausas
nos pontos, parecia escalar um monte de tão alto que ele estava... Porque não
corria para o ônibus, era o ônibus que ia buscá-lo. “Até que chegou rápido
hoje” pensava já subindo.
Sentado ou de pé, ele
sempre via as luzes da cidade. Ela, que parece nunca dormir, mirava no brilho
dos olhos dele a imaginação... E vinha a velocidade, e vinha o vento, e vinha
as luzes... Vinha um sonho bom... O Ônibus deitava nas curvas e ele deitava no
que lia, no que ouviu na aula, no que Dona Ana dizia, nos caminhos para o
destino, no futuro. A viagem sempre tem essa aura de flutuação quando se
conhece bem o peso do caminho.
Quantos rostos familiares
ele avistava dentro daquele Ônibus... Rostos que desciam antes, rostos que
chegavam antes, rostos rotineiros de bolsas iguais a dele, rostos cansados, com
sapatos sujos, com camisas sujas, com blusas da rotina; de farmácias, de
padarias, de pet shops... Rostos que vivem, que sonham, que sorriem, que fazem
aquela cidade girar tal como o círculo que a criança aprende desenhar cedo, que
em cor o pinta como quiser, que amaça, puxa e aperta e forma uma esfera, que o
molda como quiser, que o transforma em mundo, em vida. Rostos de tudo, de
todas, de todos; rostos que mudam, moldam e transformam—o bolso vibrava.
Era muito tarde, “estou
quase chegando. Pode deitar” ele enviava pra mãe na mensagem. Mas os pais
sempre ficavam acordados, por vezes nem jantavam esperando o filho, porque
sabiam os lados da cidade, sabiam que muitos entre aqueles muitos que vinham e
iam, as vezes não chegavam. Que em ruas vazias, pontos vazios habitam uma
lembrança ruim, que muitas vezes acontecem do lado ou de longe, em um som que
sabem de onde vem e do que se trata. Porque sabem que o romântico futuro pode
ser averso do instante real.
Chegava em sua casa; em cansaço
no abraço que dava aos pais, sorrindo na lembrança da correria do dia e com
sono no sentar do estudar para aula de amanhã... Após, despedia-se do dia,
deitava na cama e sonhava um sonho tão igual aqueles que sonham dentro de um Ônibus a caminho do seu futuro.
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