COLAGEM: TRECHOS DE TORTO ARADO
Colagem: Trechos de Torto Arado
Torto Arado é um romance de
Itamar Vieira Junior publicado em 2019 e já se tornou uma grande obra da literatura
brasileira. O romance conta a história da família de Zeca Chapéu e Salustiana,
e suas filhas Bibiana e Belonísia. As filhas narram suas histórias na primeira e
segunda parte do livro, na terceira parte Santa Rita, uma encantada, passa a narrar.
O livro mostra um Brasil não tão distante marcado por preconceitos,
escravização, exclusão territorial e educacional, com realidades que infelizmente
ainda não são tão difíceis de serem encontradas. Nesta colagem selecionei alguns trechos
relacionados a Educação em Torto Arado, onde comento trazendo minhas reflexões.
Comecemos:
1- “Severo superou aos
poucos a timidez e passou a se comunicar de forma incessante conosco. No
início, a que era a voz duplicada, a que falava pelas duas, cuidou, sem
perceber, de instruir o primo de como poderia ser fácil entender os sinais que
havíamos elaborado, sem o recurso de uma escola, para nos comunicarmos.” (p. 30)
Começo destacando esse
trecho pois é um dos primeiros momentos que “escola” é citada no livro. Fala da
esperteza em elaborar um sistema de comunicação e passar isso na adaptação do
acidente ocorrido. Revela um distanciamento do ambiente escolar (até então) das
crianças daquelas terras. Também mostra que o aprender está em todo lugar,
mesmo sem os recursos de uma escola, Bibiana e Belonísia construíram sua comunicação
e, claro, com a escola essa construção seria bem mais acessível...
2- “Inclusive, no
princípio, o prefeito sugeriu uma solução menos trabalhosa e, sabendo que minha
mãe era alfabetizada, quis fazê-la professora. Minha mãe, consciente de suas
limitações, recusou. Reforçou em sua fala a expressão “tenho a letra, mas não
tenho o número”, e que queria muito que seus filhos de sangue e de pegação
tivessem estudo e pudessem ter uma vida melhor do que a que tinha. Essa era a
razão de todo o esforço que meu pai fez para que tivéssemos um professor e,
percebendo que não era o suficiente, uma escola (...)” (p. 48)
Esse trecho destaca bem a
relação da educação na família de Bibiana e Belonísia. Zeca Chapéu Grande, o
pai, era uma figura extremamente forte naquela terra, como se fosse um líder
para todos, tanto em corpo como em espírito sendo também um curandeiro. Não era
diferente para a Salustiana, a mãe, que, além de se tornar parteira, também
“tinha a letra” com ela fala. Em um Brasil não tão distante “ter a letra” era
algo raro, exclusivo e seletivo... E para um país historicamente preconceituoso
isso sempre pesa mais para o negro. Portanto Salustiana e Zeca Chapéu Grande
sabem muito bem a força da educação, a força do aprender. Isso transborda para
todos ali; a educação como fator principal para a ascensão, para a
transformação e mudança.
A continuação da
narrativa completa bem esse pensamento:
“Meu pai não era
alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos
da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar suas
digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez
fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco. Quem
acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as
crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência. Mas
pessoas como nós, quando viam o orgulho que sentia dos filhos aprendendo a ler
e do valor que davam ao ensino, saberiam que esse era o bem que mais queria
poder nos legar.” (p.48)
3- “Era um caminho longo
e ele falou sobre as coisas que nos sucediam naquele tempo. Falou sobre a
escola que não seria suficiente para completarmos os estudos, mas que era um
grande benefício para nós que morávamos em Água Negra, carentes de tudo. Ouvi-o
falar da seca, dos bichos que morriam, dos peixes cada vez menores, das
crianças que haviam morrido nos últimos meses.” (p. 52)
Aqui se dá continuação da importância da educação, mas já transpassando para a comunidade
de Água Negra. Mostra a situação do ambiente, da dificuldade de realmente se
ter vida em um lugar muitas vezes imerso pela seca e que, lógico, com outras
dificuldades que ficam externas além do clima de Água Negra, principalmente nas
condições de trabalho, na não remuneração, em tratos exploratórios, em uma
escravização agraria; intensificam a situação.
4- “(...) Nenhuma palavra
de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jarê de santa
Bárbara, havia requestado, quase ordenado, o cumprimento da promessa de
construção da escola feito à santa no passado. Mas ele estava lá, em pé, um dos
primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe,
com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta
que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos
um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos. Meu pai não
sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer
uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática. Muitas
vezes o vi tentar convencer algum vizinho que não queria que o filho fosse à
escola; até concordava que o filho fosse, mas dizia que menina não precisava
aprender nada de estudo. Mesmo contrariando o compadre, conseguia com que seu
pedido fosse acatado, grande era a consideração e prestígio que fluíam de sua
liderança.” (p. 69)
Aqui temos um dos
momentos mais marcantes sobre Zeca Chapéu Grande. “A luta do líder de uma
comunidade em buscar melhores condições para seus iguais”: essa parece ser uma
máxima de Zeca. A construção da escola em Água Negra traz mais do que uma
conquista, revela um caminho para o futuro. Eles construíram isso. O desgosto
dos poderosos na cerimônia de celebração da construção da escola parece
enfatizar a conquista. Diante do suor deles mesmos naquelas paredes que
trabalharam tanto, estão todos orgulhosos da chegada do futuro, algo que a
muito tempo foi negado... Zeca se empenha na frequência de todas as crianças na
escola porque elas são o futuro, porque educação representa esperança.
5- “(...) Amparou-se nas
lembranças, nas dificuldades que passaram juntos quando partiram. Das tarefas
que precisou fazer enquanto procuravam se firmar no mundo além da fazenda:
ajudante de cozinha num restaurante de beira de estrada, diarista de serviços
domésticos, cuidando de crianças. Durante esse tempo, nasceram seus filhos, e
ela cursou o magistério, realizando em parte os propósitos que a fizeram deixar
a fazenda por um tempo. Nessa jornada percebeu que a vida além da Água Negra
não era muito diferente no que se referia à exploração. Mas havia Severo, e os
sonhos, e tudo que construíam juntos. Havia dificuldades e desentendimentos,
mas havia, antes de qualquer coisa, afetos que ela mesma não poderia definir.
Afetos que envolviam suas histórias e todas as coisas que apreendiam, sobre si
e sobre sua gente. Como nessa jornada passaram a amar seu lugar! Sentiram
vontade de retornar, à medida que foram acumulando informações sobre o que era
pertencer a uma comunidade de moradores, talvez invisíveis para todo o resto,
no coração de uma fazenda.” (p.
159)
Aqui, já na terceira
parte do livro, onde a narrativa é em terceira pessoa (estratégia absolutamente
genial do autor), Santa Rita descreve como foi a vida de Bibiana que fugiu de
Água Negra na busca de um futuro melhor. O cenário se volta para as batalhas da
vida de Bibiana na construção desse futuro. Percebemos que, mesmo em um Brasil
do final do século passado, não é raro encontrar história de pessoas que passam
diariamente por essas mesmas batalhas, principalmente mulheres. Vemos que a
distância histórica temporal parece não diminuir o agravamento no Brasil atual, onde, para a mulher já se
construí um numero incontável de barreiras, imagine para a mulher negra? Um
Brasil que não se importa com a história, com vida dos portadores dessas
histórias. Não se importa com o que sentem, com seus afetos, com seus sonhos.
Mas aqui Santa Rita escancara toda a força, toda a vontade, todo o afeto e
sonho de Bibiana no caminho para esse futuro. No magistério vence e trilha um
caminho para a voltar a Água Negra com o mesmo futuro na cabeça visando esperança para sua terra, para sua família.
Marco, por fim, nessa
colagem a última linha do livro. Um recado sobre a educação, onde ter esperança
nela é também ter uma força poderosa. Uma frase que transmite uma mensagem além
do que se enxerga e possa se sentir após uma grandiosa história de amor, luta,
esperança e representatividade:
“Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”

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